segunda-feira, 6 de junho de 2011

Reforço de segurança chega ao Pará nesta terça

06.06.2011.

  A chegada de reforço federal para garantir a segurança de assentados no Pará não altera a decisão de trabalhadores rurais ameaçados de morte. Eles optaram por abandonar plantações e fugir da região. Além dos extrativistas relacionados na lista da Comissão Pastoral da Terra (CPT), também vão deixar o assentamento os parentes do casal José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, mortos em uma emboscada na saída do assentamento em Nova Ipixuna (PA).

A força tarefa formada por policiais federais, agentes do Exército e da Força Nacional começa nesta terça-feira (7) a atuar na região. Também nesta terça, líderes do movimento participam de audiência no Ministério do Meio Ambiente, em Brasília. O reforço e o diálogo começam 14 dias após o assassinato do casal. Enquanto alguns decidem fugir, em Marabá, os acampados improvisam uma milícia armada com porretes de madeira para controlar distúrbios e alertar sobre ação de pistoleiros.

A assessoria do Ministério da Justiça informou que vai reforçar a segurança no Pará, Rondônia e Amazonas, nas regiões onde ocorreram crimes na última semana e onde há conflitos pela terra. A ação, segundo a assessoria, será baseada no apoio às ações das polícias locais. Sobre a quantidade de homens que participarão, o ministério informou que ainda não tem o número e que não vai divulgá-lo por questões de segurança. A duração do reforço na segurança também não está definida. A assessoria informou que “ela atuará enquanto necessária”.

Até então sem proteção direta de forças de segurança, os grupos buscavam com improviso maneiras de evitar o crescimento da lista de 42 líderes assassinados em dez anos na região, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT).  Na semana passada, a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, destacou que o governo avalia as situações mais graves de ameaça, mas não tem condição de dar segurança para todos.

Segundo a CPT, há 70 mil famílias assentadas ou cadastradas em 39 municípios que compõem o Sul e Sudeste do Pará. A pastoral divulgou, na semana passada, uma lista com o nome de 30 trabalhadores rurais na região de Marabá que estão recebendo ameaças ou que já sofreram algum tipo de atentado no período de 2000 a 2010.  De acordo com a organização, foi apresentado ao governo federal uma lista com 1.855 nomes de trabalhadores que sofreram algum tipo de ameaça no período. Destes, 207 receberam mais de uma ameaça.


A Polícia Civil ouviu 25 testemunhas sobre o caso, mas não conseguiu determinar os possíveis mandantes do crime e os executores do plano. O delegado Álvaro Ikeda, do Núcleo de Apoio às Investigações, e Rilmar Firmino de Sousa, delegado-geral do Pará, estão em Marabá para acompanhar a investigação.


Medo - Aos 57 anos, o agricultor José Martins, o Zequinha, lamenta ter que deixar as terras que cultiva à beira do Lago Tucuri, em Nova Ipixuna, sudoeste do Pará. Ele é um dos 30 moradores do assentamento agroextrativista Praialta Piranheira jurados de morte por pistoleiros. Muitos lotes do local são rodeados por uma vegetação ainda intocada e são desejadas para extração irregular de madeira e criação de gado, virando alvo de cobiça de fazendeiros e madeireiros.

O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou que pediu para a Justiça estadual o embargo de 12 madeireiras da região.

“Já queimaram quatro casas minhas aqui em seis meses. Foi a minha casa de morada, uma cisterna, uma casa de forno e uma casa de galinha. Já inventaram que sou pedófilo, e essa calúnia é o que mais me dói. Tenho uma filha de 10 anos e me sinto cortado por dentro. Deus é o advogado dos advogados, e eu confio nele. Não quero ficar mais de um mês aqui”, disse o agricultor.

Outro agricultor da região, que prefere não se identificar, também lamenta ter de deixar suas terras. “Foi o José Claudio e a dona Maria que me trouxeram para cá. Com o apoio deles era mais fácil, mais tranquilo, a gente superava até as ameaças. Agora, com a morte deles, fica mais difícil de viver, pois perdemos força, nos sentimos sozinhos, isolados, esquecidos. Não tenho mais como ir para a roça e deixar minha mulher e filhos em casa. Não dá nem para dormir uma noite inteira. Desisti e vou embora.”

Irmã de assassinado - Segundo Claudelice Silva dos Santos, de 29 anos, irmã de José Claudio, a saída dos agricultores do assentamento pode sinalizar o fim do movimento pacífico de manejo sustentável da terra na região.

“Os fazendeiros, os madeireiros querem usufruir da natureza, derrubar a floresta, a vegetação nativa ao preço de um lucro pequeno e imediato. Para isso, eles usam de intimidação, ameaças para garantir o que eles consideram serem donos. Aqui não há dono de terra, a terra que está aqui é da União, o que nós temos é o direito de uso. Isso precisa ficar claro para a sociedade”, explica.

Pelo menos seis familiares dela, que viviam na região onde o irmão extrativista foi morto com a mulher, deixaram suas casas no assentamento agroextrativista Praialta Piranheira. Temerosos, não revelam onde estão morando para evitar qualquer possibilidade de novos atentados.

Denúncia de laranjas - De acordo com os extrativistas, José Claudio e Maria morreram por denunciar o uso de “laranjas” para a aquisição de lotes no assentamento agroextrativista, onde viviam e trabalhavam. Segundo as denúncias do casal, o esquema envolveria um cartório da região, fazendeiros e madeireiros, na tentativa de reassumir o controle de terras que foram loteadas.


O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) informou que deve vistoriar 20 mil lotes em 44 assentamentos em Marabá. No sudeste paraense, existem cerca de 69 mil lotes em quase 500 assentamentos.

Tropas federais - A “Operação Proteção à Vida”, coordenada pelo Ministério da Justiça e que envolve a presença de homens da Polícia Federal (PF), da Polícia Rodoviária Federal (PRF), das Forças Armadas e da Força Nacional de Segurança vai começar a partir desta terça-feira (7) na região.

Policiais federais já estão em Marabá a pedido da presidente da República, Dilma Rousseff, para investigar a morte do casal de extrativistas. Policiais civis de Belém foram deslocados para reforçar a investigação do mesmo caso.

Acampados - Desde maio, centenas de militantes ligados ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) montaram acampamento em frente à sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Marabá (PA).


Distantes da presença policial, em acampamentos de sem terras na cidade, a garantia de segurança é oferecida pelos próprios agricultores, que improvisam um sistema de vigília 24 horas, feita por seguranças do movimento, munidos apenas de pedaços de pau e coletes com a identificação de “Segurança”. Eles circulam por todo o acampamento para evitar ataques surpresas de possíveis pistoleiros.


Para se defender de possíveis ataques, os sem terra montaram uma equipe de “milícia”. O objetivo principal é coibir ações de seguranças de fazendas e de pistoleiros. “Serve para defender a gente dos que são contra o movimento, para não sermos surpreendidos. Fazemos rondas por todo o acampamento durante 24 horas”, disse o chefe do grupo, que preferiu se identificar apenas como Francisco.

O “comandante” da tropa, que usa apenas um porrete improvisado de madeira para trabalhar, disse que a medida também serve para proteger os acampados de qualquer tipo de violência.

As armas de defesa, conta o comandante, são fabricadas no próprio acampamento. “A gente faz rapidinho esses porretes. Usamos madeira branca porque é fácil de moldar e é resistente. Nunca precisei usar o porrete”, disse o vigilante Denival Lopes dos Reis, 32 anos.


Fonte: G1

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